
A EMOÇÃO DE GANHAR NA LOTERIA
Mais de 600 milhões de reais em prêmios são distribuídos por ano.
O dinheiro modifica a vida de quem tira a sorte grande?
Os devidos créditos são reservados à
revista Reader's Digest Seleções, pela publicação do artigo.
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Os cariocas Marilena e Ildson dos Santos Almeida planejavam casar-se em junho de 1982. Pouco antes do dia marcado, ambos perderam o emprego. Apaixonados, mantiveram a data, mas o sonho de construir uma vida confortável e melhorar as modestas condições dos pais parecia adiado. "Com quatro meses de casado não tínhamos dinheiro nem para procurar trabalho", lembra Ildson.
Ele pensava nisso quando parou em frente a uma casa lotérica e
resolveu tentar a sorte com os últimos trocados que carregava no
bolso. Marcou o volante da Quina. Na semana seguinte, ganhou 76 milhões de cruzeiros o que, era na época uma respeitável
"bolada".
O casal comprou
um apartamento de três quartos e um carro, e não se esqueceu
dos parentes. Os pais de Ildson ganharam casa própria no Rio e
os de Marilena, em Belém. E ainda sobrou dinheiro para poupança.
Ildson tornou-se um bem-sucedido corretor de imóveis e a família
aumentou, com o nascimento de Henrique e Katarina, que não se
cansam de ouvir a história do prêmio ganho pelo pai. "Foi
maravilhoso comprar o que tanto queríamos".
Mais de 40 milhões de reais semanais são sorteados na loteria. E um número crescente de brasileiros junta-se a sortudos como Almeida. "Quase 15% dos adultos jogam regularmente na Mega-Sena, Quina e Super Sena", diz José Maria Nardeli Pinto, gerente de áreas de loterias (Foi gerente até final de 99)e produtos complementares da Caixa Econômica Federal (CEF), o órgão do governo que supervisiona todas as loterias. "Aposta-se muito mais em períodos de crise econômica."
Num balanço do primeiro semestre deste ano (99), a CEF mostrou que a arrecadação cresceu 20% em relação ao mesmo período do ano passado.
A costureira carioca Lúcia Loureiro esforçava-se para manter a família. Trabalhava das 7h30 às 22h30. Certa noite de março de 1985, após Ter terminado o vestido de uma freguesa fez uma prece silenciosa, pedindo paz e prosperidade. De repente, embora jamais tivesse apostado, teve a intuição que deveria jogar na Quina. Escolheu as dezenas a partir das placas de carros estacionados em frente à sua casa. Ganhou 167 Milhões de cruzeiros.
Com o prêmio, a família construiu a casa de seus sonhos, com sete quartos, gramado e piscina. Lúcia comprou um carro, ajudou parentes e amigos e pagou a faculdade para as duas filhas. O restante colocou na poupança.
Depósitos em poupança, compra de carros, casa própria e auxilio à família são quatro das principais aplicações dos prêmios. Os ganhadores raramente perdem a cabeça. "Após o primeiro choque, a maioria paga as dívidas, faz compras e busca orientações sobre investimentos", diz o gerente de mercado do Escritório de Negócios da CEF no Rio Grande do Sul, Sérgio Simon.
A CEF costuma aconselhar os ganhadores a depositar o prêmio na poupança até que passe a empolgação da vitória. "Se o ganhador estiver interessado, estamos prontos a indicar as melhores alternativas de investimento do mercado", diz Waldir Gonçalves, consultor de campo na área de loterias da CEF.
Um artesão de São Paulo conservou o emprego depois de ter ganho o equivalente a 250 mil reais há seis anos. Pagou um empréstimo, comprou uma casa e deixou o restante do dinheiro na poupança. Em 1995 parte dessa reserva foi usada para salvar a vida do ganhador, quando ele precisou se submeter a uma cirurgia de coração.
Algumas pessoas são especialmente generosas com o dinheiro do prêmio. Em 1990, um ganhador de Bagé recebeu o equivalente a 700 mil reais e doou parte do dinheiro aos necessitados. Em 1987, no interior de Minas Gerais, uma ganhadora doou parte do prêmio para a promoção de exposições de artesanato, no intuito de valorizar a arte local e estimular a carreira de artistas promissores.
Sem
garantias. Mas nem sempre o dinheiro garante vida fácil.
Em Passo Fundo (RS), o dono de uma serralharia ganhou o
equivalente 800 mil reais e aproveitou para aumentar o negócio.
Amante de futebol, assumiu a presidência de um time da cidade.
Gastou quase tudo quanto ganhara e anos depois ficou apenas com a
serralharia.
Há quem lastime as exigências das amizades. Na cidade de Santa
Maria (RS), um peão ganhou 7 milhões de reais na Super Sena, em
dezembro de 1995. Assediado por pedidos de empréstimos, começou
a receber propostas de casamentos. Rompeu com os velhos amigos,
comprou uma fazenda grande que hoje ele administra
e nunca se casou.
O maior prêmio individual pago no Brasil foi o da Mega-Sena acumulada no sorteio 144, em dezembro de 1998 (estes dados se refere a agosto de 99) : 33,6 milhões de reais. Três apostadores de Rondônia foram os ganhadores. Marcaram juntos todos os mesmos números que vinham tentando há muito tempo.
Há quem não dê ouvidos quando a sorte bate à sua porta. Cerca de 3% do valor dos prêmios ficam retidos na CEF. São ganhadores que não aparecem para receber o dinheiro. Depois de 90 dias, a CEF doa o dinheiro ao programa de Crédito Educativo, à seguridade social e ao Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto do governo federal. No ano passado (se refere ao ano de 98),mais de 28 milhões de reais foram "esquecidos". A Maioria dos ganhadores evita a publicidade. "Raramente um ganhador se identifica", diz Sérgio Simon. "A maioria dos vencedores só conta a boa notícia à família, pois em geral tem medo de roubo e seqüestro.
O carioca Maurício Boyd, aficionado apostador e gerente de uma casa lotérica no centro do Rio de Janeiro, não fugiu da notoriedade. Depois de ganhar três vezes em loterias o equivalente a 100 mil reais, comprou uma loja que gerenciava, tornando-a recordista de movimento, com 34 mil apostas por semana, e ainda abriu outra loja. "Antes de preencher os volantes", diz Boyd, "muitos apostadores gostam de apertar minha mão, na esperança de que parte da minha boa sorte passe para eles".
Métodos e manias. É infinita a variedade de métodos usados pelos jogadores na escola dos números. Em São Paulo, um rapaz nem sabia como aposta. Pediu ajuda ao dono da casa lotérica no Jardim Paulistano. "Basta riscar seis números", explicou, paciente, Alberto Schoeps. O rapaz escolheu os primeiros números que lhe vieram à cabeça e ganhou 337 mil reais.
Na Bahia, 22 juízes e advogados escolheram 15 dezenas, optando pelos números mais freqüentes nas listas que cada um preparara. Ganharam 22 milhões de reais. Um apostador de São Paulo escolheu as dezenas e a partir de porcentuais impressos no verso do volante, mostrando o investimento social dos recursos obtidos. Ganhou o equivalente a 100 mil reais.
Todos anos, os ganhadores partilham mais de 600 milhões de reais líquidos em prêmios.
No entanto, se você não foi um dos sortudos até agora, pode ser consolo saber que o dinheiro muitas vezes vai para gente que precisa dele. Na Bahia, um apostador com renda mensal de 300 reais ganhou 13 milhões na Mega-Sena.
Esse tipo de dinheiro traz felicidade? Para a ex-lavadeira Sebastiana de Paula Dias, que mora com os filhos numa fazenda a 50 quilômetros de Goiânia, mudar de vida parecia improvável. Ela ganhava pouco até para sustentar a família. Um dia em 1971 o filho de Sebastiana, Maurício, juntou os trocados ganhos lavando carros e engraxando sapatos, e marcou o volante de aposta. A família faturou um prêmio de 3,4 milhões de cruzeiros. Hoje podem Ter tudo que desejam. Compraram uma boa fazenda e mais de 500 cabeças de gado. "Mesmo sem dinheiro, éramos felizes antes do prêmio e hoje somos ainda mais felizes", diz Sebastiana.
Sem dúvida a maioria dos ganhadores concordaria com ela: estar bem de vida é muito melhor.